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Chico Anysio foi a "cara do Brasil", lembra viúva

Hoje, sábado dia 23, marca um ano do falecimento de Chico Anysio. Para sua viúva, Malga di Paula, 43, o legado que o humorista deixa após sua morte é ter sido, mais que um artista, a "cara do Brasil". Se estivesse vivo, o cearense da cidade de Maranguape completaria 82 anos no próximo dia 12 de abril, data em que Malga ainda quer lembrar com uma grande homenagem. Antitabagista no final da vida, Chico lutou contra um enfisema pulmonar por mais de 30 anos e agora dá nome a um instituto de pesquisa que busca a cura da doença, que está ligada ao fumo.

Em entrevista exclusiva ao UOL, a gaúcha Malga, no apartamento no Rio de Janeiro em que viveu com Chico por cinco anos, relembrou a cantada que recebeu quando conheceu o humorista, quando tinha 28 anos, seus últimos momentos de vida e como ele era um ser generoso. "Ele amava uma plateia. O Chico era um poeta e um grande contador de histórias". Leia a seguir a entrevista com a viúva de Chico Anysio:


UOL - Dia 23 março marca um ano do falecimento de Chico Anysio. Como tem lidado com a falta dele?

Malga - A falta que ele faz é tão grande. Eu não estou recuperada, tem dias que eu me sinto forte e no dia seguinte não consigo levantar da cama. Ele me faz muita falta. Nesses últimos dias, lembro o que eu estava fazendo um ano atrás nessa hora, como nós estávamos, aquele sofrimento, aquela dor, a torcida, a esperança. Eu me lembro de tudo, só que um ano atrás eu tinha esperança.


Você ainda mantém os objetos pessoais do Chico intactos, as roupas no closet, os livros no escritório, os prêmios...

Não deixo ninguém mexer. Já ouvi de tudo, as pessoas falam muito que eu devo sair daqui (do apartamento onde moraram 5 anos dos 14 anos de casamento), que eu devo recomeçar minha vida em outro lugar, mas não tenho vontade. O Chico é impossível de não lembrar, não tem como esquecer. Esse é o nosso canto, a nossa casa. Aqui é o canto dele, enquanto continuar morando aqui, vai ficar tudo do mesmo jeito.



Como serão as homenagens pela memória de Chico?

Tentei fazer no Rio. Queria jogar rosas brancas na floresta no Projac- local que recebeu parte das cinzas dele - mas não tive autorização. Vou jogar flores no domingo à tarde na serra de Maranguape (CE). Lá eu tenho apoio do governador e depois a gente vai ter uma missa comunitária para o Chico. Aqui no Rio, não consegui nenhuma igreja até agora. Ele adorava frequentar a igreja de São Jorge no Rio Comprido, onde foi a missa de 7º dia, mas o acesso é difícil. Devo fazer aqui em casa um evento fechado só para a família e chamar um guia espiritual franciscano que era o guia do Chico. Então no sábado vamos reunir a família aqui em casa e depois sigo para Fortaleza. Na segunda-feira à noite, vou participar de uma cerimônia de entrega de uma medalha honorária, a mais importante do Ceará.


Você tem recebido o apoio da família do Chico, mensagens de carinho de amigos e fãs?

Tenho um carinho muito grande do Bruno Mazzeo, um grande amigo. Também do Nizo Neto e do André Lucas, que é o filho querido do coração, são as únicas pessoas com quem eu posso contar. A gente se fala, troca ideias, conversa, a gente se visita. O maior elo entre eu e a família do Chico é o João, o filho do Bruno, que está com 7 anos. Ele transferiu todo o carinho que tinha pelo avô para mim. Isso faz com que eu me sinta parte da família. Tenho um amor incondicional pelos dois filhos da Zélia Cardoso de Mello, Rodrigo e Vitória, mas moram longe e a gente se vê uma vez por ano. Tenho recebo muito carinho e apoio dos fãs pelo Facebook, Twitter, e-mail. 


A última aparição pública de Chico foi em 2011, quando recebeu o prêmio especial do Júri do Festival do Rio. Como foram seus últimos dias?

Naquele momento ele já estava precisando de oxigênio, a enfermeira foi junto, levou uma bomba de oxigênio, mas não quis usar durante o evento. Ele foi forte, quis subir no palco, fez piada, brincadeira. Depois, foram quatro meses de internação, um mês ele ficou consciente, os outros três ele ficou no CTI. Foram meses difíceis, sofreu muito. Antes, quando ele estava em casa, fez fisioterapia e voltou a trabalhar, a gravar a personagem Salomé no programa "Zorra Total". Quando voltou a caminhar, um dia ele sentou no ateliê, começou a pintar e deu um grito "Ai!" que não era comum. Foi nessa hora que ele teve a fratura na coluna e, a partir daí, não parou mais de gritar de dor. Isso foi em agosto de 2011. Em setembro, eu tinha uma viagem marcada com a Gloria Perez para a Turquia (como consultora para a novela "Salve Jorge"), ele não estava bem, mas insistiu muito que eu fosse. Ele me apoiava, que esse trabalho ia me dar um estímulo. Fui preocupada durante a viagem e quando voltei, foi piorando até início de dezembro quando ele internou e não saiu mais. Só veio para casa uma noite antes do Natal que foi a despedida dele de casa.



Como foi essa última despedida em 2011?
Ele veio dia 22 de dezembro para casa, eu tinha organizado a Ceia de Natal para o 24. Naquela noite que ficou em casa, ele não estava se sentindo seguro para sair do hospital, mas o médico insistiu que viesse. Acho que o médico viu que não tinha mais jeito. Ele brincou muito com as cachorras, no jantar quis arroz, feijão, ovo frito e pimenta. Ele amava pimenta, comeu com tanto prazer, foi a última coisa que ele comeu. Tomou uns 5 gatorades e na manhã seguinte acordou sem pressão e fomos para o hospital. No 24 de dezembro, eu passei meia-noite com ele. No dia de Natal ele teve alta para o quarto e recebeu várias visitas da família.


Chico deixa que legado como humorista e como pessoa?

O Chico foi um grande artista, tinha a capacidade de atuar com tantas personalidades distintas. O Chico é a cara do Brasil. Ele foi um grande homem, foi a generosidade em pessoa. Amava uma plateia, ficava todo mundo parado ouvindo suas histórias. As pessoas ficavam embasbacadas ouvindo suas falas. O Chico era um grande contador de histórias, era um poeta. O Chico acreditava em Deus, um Deus diferente, se identificava com a figura de São Francisco, generoso, pai, que cuida, ampara, amigo, que acolhe. Como ele era.


Como descobriu a doença?

O grande inimigo do Chico foi o cigarro - foi diagnosticado com enfisema pulmonar depois de fumar por 40 anos. Quando a gente é jovem não tem a dimensão da finitude da vida. O Chico descobriu aos 53 anos que ele tinha enfisema e viveu até os 80. Foram 27 anos com uma péssima qualidade de vida. Quando soube da doença ele parou, mas mesmo assim, o enfisema é progressivo, só piora. A vida tem fim e a questão é como vamos morrer. Pela última vez que nos falamos, eu vi uma pureza no olho dele, uma paz, uma serenidade.



Em vida, Chico chegou a dizer que se arrependia de algo?

Sim, ele falava isso. Ele se tornou um antitabagista no final da vida. Dizia que era a única coisa que tinha se arrependido. Ele falava, "eu casei um monte", mesmo os casamentos terem durado sempre muito pouco. Mas o único arrependimento dele era ter fumado. Falava que se pudesse voltar atrás, não fumaria. Ele faria tudo de novo, teria os mesmo filhos, casaria com as mesmas mulheres.


No convívio de 14 anos, o que foi que mais te chamou atenção no Chico?


Ele começou na carreira imitando vozes, mas depois parou de imitar. O que me marcou no Chico foi o lado poeta que as pessoas menos conhecem. Ele era pintor, compositor, ator, radialista, comentarista esportivo, diretor, mas era um grande poeta. Em tudo ele conseguia ver uma poesia.


Como vocês se conheceram?


Fui fazer uma pesquisa sobre a Dolores Duran na casa dele porque tinha sido amigo dela e eu cantava na época. Queria fazer um resgate de Dolores. O encontro foi mágico e pretendo escrever um livro sobre isso. Nos conhecemos em 1998. Tenho a certeza que não foi só um encontro, foi um reencontro de duas almas que se buscaram. Tinha 28 anos na época, jovem, mas não queria casar porque ninguém servia para mim. Eu era essa alma que buscava o Chico. E no dia que o conheci, falei da Dolores Duran e coloquei o disco dela para cantar a "A Noite do Meu Bem" que se tornou a nossa música. Ele olhou profundamente nos meus olhos e cantou a parte da música que eu mais gosto: "Ah, como este bem demorou a chegar / Eu já nem sei se terei no olhar / Toda pureza que eu quero lhe dar ainda...".


Você sente que ele continua sendo tão querido?


O Chico sempre falou: "eu sou um artista do povo". Eu sei que o Chico é uma pessoa querida pelo povo e lutou por uma causa nobre, um legado que fiquei de conseguir, a conclusão da pesquisa que ele acreditava ser a cura do enfisema, apoiando um pesquisador do interior de São Paulo, da UNESP, Dr João Tadeu Ribeiro Paes, com R$ 800 mil.



Como está o Instituto Chico Anysio?

A ideia do Instituto surgiu quando o Chico estava no CTI, em 2011. Ele conhecia o Dr João Tadeu há muitos anos e tinha esperança da cura. Só que o Chico vivo não conseguiu apoio. O Instituto não nasceu só para a pesquisa, nasceu para defender a causa antitabagismo que é muito maior.

Que recursos faltam para apoiar a pesquisa?


Recebo parcerias de colegas do Chico que querem ajudar e põem a imagem e o cachê deles à disposição. Tenho recebido a disponibilidade de alguns meios de comunicação, mas eu tenho que ter dinheiro. Uma das dificuldades é a divulgação da existência do instituto. Para isso, preciso de recursos. Queria muito no primeiro ano do aniversário da morte dele ter conseguido parte do dinheiro. O CONEP (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) aceitou que a gente tivesse R$ 200 mil para começar a pesquisa e eu queria ter esse recurso nesse um ano do falecimento do Chico. O meu primeiro projeto é apoiar o Dr João Tadeu, que foi o pedido do Chico. Eu tomei para mim essa missão. Não consegui avançar muito em função da minha saúde. O luto tem me feito muito mal, tenho esperança de poder sair desse luto.

Fonte: Uol
João Alves

João Alves

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