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Ashton Kutcher se esforça, mas não salva a cinebiografia "Jobs"

Muito se especulou sobre a capacidade de Ashton Kutcher de voltar a um papel dramático após anos fazendo apenas sitcoms e comédias românticas. E o ator cumpre bem o papel de interpretar o cofundador da Apple Steve Jobs, mas não consegue salvar a cinebiografia dirigida por Joshua Michael Stern.


O filme retrata um período longo da vida de Jobs, desde quando estava na faculdade Reed, em Portland, aos 17 anos, passando pelo primeiro emprego, na Atari, e a fundação da Apple, em 1976, até a decadência dentro da empresa e posterior retorno triunfante, em 1996. O filme não mostra a morte de Jobs, em 2011, aos 56 anos, de complicações decorrentes de câncer no pâncreas.

Os inúmeros acontecimentos, entretanto, parecem jogados e sem amarração, numa sequência cansativa. Cenas de situações conflitantes, como quando diz à ex-namorada que não queria saber da filha, e outras de total irrelevância, como Jobs andando pelo campus da faculdade, passam pela tela indiferenciadamente, convidando o espectador a ficar impassível diante dos fatos mostrados.

Kutcher se esforça. Depois de ter se dedicado por uma década quase que exclusivamente às séries "That 70's Show" e "Two And a Half Man" e comédias românticas inofensivas, como "Jogo de Amor em Las Vegas" (2008) e "Sexo Sem Compromisso" (2011), recebeu o desafio de enfrentar uma das figuras mais controversas da chamada "era digital". E conseguiu uma atuação razoável, facilitada pela inusitada semelhança física com o empresário, mas também com méritos próprios: ele imita bem manias, como de juntar as mãos tocando as pontas dos dedos, a voz e a obstinação de Jobs.

Josh Gad, que já havia atuado em papéis menores em séries de TV como "Californication" e "Bored To Death", também convence no papel de Steve Wozniak, cofundador da Apple com Jobs. Os demais atores - como os experientes J. K. Simmons ("Homem Aranha") e Matthew Modine ("Carga Explosiva 2") - fazem pouca diferença, pois o número de personagens é excessivo, sobrando pouco espaço para que cada um consiga desenvolver bem a própria história, mesmo em mais de duas horas de filme.

Mas o pior mesmo é que nem história de Jobs é possível se conhecer com o filme. A leitura de um bom artigo de enciclopédia - ou, para quem tempo e interesse, da biografia de Walter Isaacson - possibilitaria uma compreensão melhor do complexo personagem.

A trilha-sonora é outro destaque negativo, composta por baladas como "There Were Times", interpretada por Freddy Monday, que seriam mais bem empregadas se utilizadas para animar um elevador.

Pelo menos Stern não tentou retratar Jobs como um herói-visionário incompreendido, mostrando várias atitudes moralmente questionáveis do empresário, sobretudo a relação dele com a ex-namorada Chrisann Brennan, com quem teve uma filha -- Lisa -- que relutou em reconhecer. Mas isso é muito pouco para um filme que tem a pretensão de contar a história da vida de alguém.

FONTE: Uol / Cinema

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João Alves

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