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Ele está em todo lugar: conheça o dono da voz de "Brasil il il il"

Você nunca o viu, mas ele estava sempre lá. Ele estava lá quando Carlos Alberto, o Capita, acertou aquele petardo de direita no canto do goleiro italiano e confirmou o tri. Ele estava lá quando Falcão inventou outro petardo, esse de esquerda, e fez parecer que seria o tetra, antes de Paolo Rossi mostrar que não seria.

Ele estava lá, um ano depois, quando Nelson Piquet foi bicampeão da Fórmula 1 em uma manhã de outubro na África do Sul. Ele estava lá quando Senna levantava sua pequena bandeira do Brasil, desafiando a resistência do vento e se transformando em herói.

Ele estava lá quando Roberto Baggio pegou muito embaixo e colocou a bola nas arquibancadas do Rose Bowl. Ele estava lá em cada um dos 15 gols de Ronaldo Nazário em Copas. Ele estava lá quando a muralha Oliver Kahn caiu no Japão.

No ano passado, no primeiro segundo daquele jogo no Mineirão, aquele jogo que nunca mais vai ser esquecido, ele estava lá. Mas nos 90 minutos seguintes, ele já não estava.

Você nunca o viu, mas Edmo Zarife se fez presente em todos os grandes momentos do esporte nacional nas últimas cinco décadas. É dele a voz firme, densa, da vinheta "Brasil il il il"; a voz que acompanha as transmissões esportivas da Rede Globo desde a Copa de 1970. É dele a voz que declama, como um poema de um verso só, o nome deste país; a voz que ecoa o Brasil copiosamente, como se Zarife estivesse dentro de uma caverna ou na beira de um precipício.

É curioso que Zarife, em quatro décadas de carreira no rádio carioca, nunca tenha estado fisicamente em um grande evento esportivo. Ele não era locutor de esportes, mas seu timbre raro o tornou uma espécie de voz oficial da Rádio Globo. Ele bolava e gravava a maioria das vinhetas e chamadas dos programas que iam ao ar.

Em 1968, nos preparativos para o Mundial do México, lhe deram a incumbência de gravar uma vinheta que acompanharia as transmissões dos jogos da seleção na Copa. Ele se trancou no estúdio com o sonoplasta José Cláudio Barbedo, o Formiga, e saiu de lá com um fita cheia de opções.

Logo ficou claro que o "Brasil il il il", pela simplicidade e pelo nacionalismo explícito, seria a escolha ideal. Formiga não demorou a acrescentar à gravação aquele efeito inicial, aquele som meio estranho, como o lançamento de um bumerangue eletrônico, embora naquela época edição de som fosse um procedimento quase artesanal.

A vinheta de Zarife fez sucesso e embalou o tricampeonato da seleção ouvido pela rádio. Era um tempo de explosão criativa na empresa. Cada narrador ganhou uma vinheta particular, e a própria Rádio Globo criou sua assinatura, um grito singelo, também ecoado, na voz do cantor paraguaio Fábio Stella.

Não demorou para o "Brasil il il il" chegar à TV. Mas ninguém sabe dizer exatamente quando isso aconteceu. O registro mais antigo da vinheta na TV encontrado pela reportagem foi na Copa de 1978; é possível que ela tenha sido usada antes.

A certeza é que Zarife tinha muito ciúme da vinheta e cuidava dela como se fosse uma de suas filhas.

O radialista Edson Mauro conta um episódio que estremeceu as estruturas da rádio em meados da década de 1980. O repórter João Vita, que era muito brincalhão, estava explicando ao ouvinte a situação do trânsito na capital carioca. Ele havia combinado que toda vez que se referisse à Av. Brasil, uma das mais importantes da cidade, falaria apenas "Avenida" e o sonoplasta deveria completar com a vinheta "Brasil il il il".

Assim foi feito, e João Vita riu da graça.

Quando soube dela, Zarife ficou furioso. "Você está banalizando a vinheta", disparou, do alto de seus dois metros. "Isso é um patrimônio da rádio, não é para ser usado em qualquer coisa!"

Vita tentou se desculpar, dizer que estava valorizando o trabalho de Zarife.

Por via das dúvidas, preferiu nunca mais usar o santo nome do Brasil em vão.

O radinho de pilha

Zarife é descrito por aqueles que o conheceram como um homem perfeccionista. Conta-se que mesmo quando ele estava de folga, ficava ouvindo a programação da Globo em um radinho de pilha no bar em frente à redação.

Caso achasse que algo ia mal, subia no prédio para reclamar.

"Mesmo hoje em dia, quando fazemos uma cagada, dizemos: 'o Zarife deve estar se revirando'", brinca o locutor José Carlos Araújo, o Garotinho.

Zarife adorava gatos. Duas vezes por dia, descia da rádio para dar leite a uma felina chamada Chaminha, que vivia na garagem e só ficava tranquila perto dele.

Tinha uma mulher e duas filhas. Um fusquinha e uma casa em Niterói.

Era generoso. Nunca foi rico, mas costumava colocar notas de dinheiro no bolso de funcionários da rádio. Ficava muito triste quando um programa da concorrência ia mal de audiência porque temia pelo emprego de seus colegas. Chamava todos de "papai", sem nenhuma razão especial.

Era sempre interpelado pelos amiguinhos de suas filhas para que repetisse ao vivo a vinhetinha que eles ouviam na TV. Zarife declamava, orgulhoso: "Brasil il il il"

Um ano antes de ele morrer, a Globo pagou uma espécie de indenização pelo uso de sua voz. O acordo vale até 2018. Dizem que Zarife nunca pediu dinheiro pela vinheta que criou, mas aceitou o agrado como uma espécie de presente.

Era flamenguista doente, fã e amigo de Zico. Com problemas cardíacos, foi internado no final de 1999, no mesmo dia em que o Flamengo foi campeão da Copa Mercosul, naquele jogo épico contra o Palmeiras no Palestra Itália.

Zarife não pôde comemorar. Foi enterrado dias depois com uma camisa rubro-negra, uma bandeira rubro-negra e um radinho de pilha, o mesmo que o acompanhou durante a vida toda. Seu corpo se foi, mas sua voz continua ecoando.
João Alves

João Alves

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