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Titanic: último fenômeno verdadeiro do cinema completa 20 anos


Não tinha como dar certo. James Cameron fez sua carreira como diretor de ação e ficção científica, extrapolando os limites da tecnologia e da narrativa cinematográfica em triunfos como os dois primeiros O Exterminador do Futuro, O Segredo do Abismo e True Lies. . Quando ele decidiu contar uma história de amor fadada à tragédia tendo o naufrágio do navio Titanic como pano de fundo, os executivos do estúdio que bancaria a conta, a Fox, tremeram. A ideia de Cameron, surgida de seu fascínio por histórias sobre naufrágios, era um “Romeu e Julieta no Titanic”, um épico romântico de três horas que pretendia capturar a imaginação da platéia com o romance e, também, com uma viagem de volta ao navio lendário, que afundou em 15 de abril de 1912. Seria caro. Seria tecnicamente complexo. Seria um pesadelo para sair do papel. Duas décadas atrás, quando finalmente chegou aos cinemas, Titanic também se tornou outra coisa: um fenômeno sem precedentes, um filme que, ao fim de sua carreira gloriosa, teria quebrado todos os recordes de bilheteria e amealhado os principais prêmios do cinemão. Não tinha como dar certo. Mas deu.

O preço foi, claro, um pouco de sangue e litros de suor de uma equipe de milhares que abraçou a causa de Cameron. Para começar sua jornada, o diretor decidiu filmar os destroços reais do navio, já que seu roteiro era emoldurado pela história de um caçador de tesouros, interpretado por Bill Paxton, em busca de um diamante perdido no naufrágio décadas antes. Mergulhar e capturar imagens do Titanic verdadeiro imprimiu em Cameron uma responsabilidade ainda maior: não era só uma história de amor que ele estava contando, e sim um microcosmo de caos, uma jornada interrompida pelo acaso que ceifou a vida de mais de 1500 pessoas, um recorte do fim do mundo, um conto sobre amor e traição, dinheiro e poder, ambição, arrogância, tragédia e triunfo. Era a vida, bela e grotesca, encapsulada nas paredes do “maior navio do mundo”, eternizada quando um bloco de gelo mostrou que a natureza ainda é mais poderosa que a mão do homem.


As filmagens exigiram uma produção jamais vista, a começar pelo imenso cenário que reproduziu o navio em escala (com pequenas modificações), erguido no Fox Baja Studios, em Rosarito, México. À beira-mar, o estúdio colocou a réplica do Titanic com o oceano como fundo – um cenário capaz de ser tombado a 90 graus, para reproduzir o momento climático do naufrágio. Absurdamente detalhista, Cameron exigiu o máximo de sua equipe, recriando pedaços do navio a partir de plantas originais e completando tripulação, passageiros, cenários e o mar usando tecnologia digital de ponta. Para manter o projeto caminhando, o diretor portou-se como um general, equiparando a confecção de seu filme como uma guerra: “É uma grande batalha entre negócios e estética”, disse à época. Quando se lida com uma produção dessa escala, existem baixas. Dublês se machucaram, parte da equipe (e do elenco) ficou doente por conta das longas horas filmando na água gelada, sets não ficavam prontos e o calendário de filmagens era constantemente alterado para conseguir o maior número de cenas por dia. Um membro anônimo da equipe, furioso com os desmandos de Cameron, colocou o alucinógeno PCP num sopão servido à trupe, mandando mais de cinquenta pessoas ao hospital.

No lado administrativo da empreitada, a coisa só piorava. Os executivos da Fox viram o orçamento de Titanic inflar para inacreditáveis 200 milhões de dólares, e já contavam com um prejuízo de pelo menos a metade dessa soma. Para aliviar o baque, a conta foi dividida com a Paramount, que se encarregou da distribuição do filme nos Estados Unidos, deixando o resto do mundo nas mãos da Fox. Os engravatados esperavam lançar o filme em 2 de julho de 1997, no meio da temporada do verão americano, quando os filmes faturavam muito mais do que no resto do ano. Mas foram frustrados por Cameron três meses antes, quando o cineasta deixou claro que seu épico não ficaria pronto à tempo. A nova data foi agendada para 19 de dezembro, exatas duas décadas atrás. O atraso alimentou boatos de que o filme seria um desastre, daqueles capazes de falir um estúdio e pulverizar a carreira de um diretor (Michael Cimino e seu O Portal do Paraíso era a comparação mais imediata). O estúdio chegou a sugerir cortes de uma hora na metragem para Cameron, que respondeu com a delicadeza de sempre: “Vocês querem cortar meu filme? Então me demitam. Vocês querem me demitir? Pra isso terão de me matar!”.


Titanic estreou com pouco menos de 30 milhões de dólares em seu fim de semana de estreia, à frente (mas não muito) de 007 – O Amanhã Nunca Morre . Então algo aconteceu. As sessões começaram a se esgotar. O público parecia não se cansar de ver o romance de Jack (Leonardo DiCaprio) e Rose (Kate Winslet) repetidas vezes. O naufrágio do Titanic voltou à pauta. Por quinze semanas consecutivas, o filme ficou no topo das bilheterias americanas, feito até hoje não igualado. No resto do mundo, os números se multiplicavam. Na cerimônia do Oscar de 1998, a obra de James Cameron foi indicada a quatorze estatuetas, levando um recorde de onze (igualando o feito de Ben-Hur em 1960, o que só foi repetido em 2004 por O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei), inclusive melhor filme e direção. Titanic ficou em cartaz por quase dez meses, acumulando uma bilheteria de 1.8 bilhões de dólares em todo o mundo – número que bateu nos 2 bilhões em abril de 2012, um século após o naufrágio, quando o filme voltou em cartaz convertido em 3D. No Brasil, Titanic ainda ocupa o topo do pódio, tendo levado mais de 17 milhões de pessoas aos cinemas.

Nestas duas décadas, cineastas, críticos e curiosos tentam, sem muito sucesso, explicar como Titanic venceu as adversidades para se tornar um fenômeno sem igual. Muitos apontam para a história de amor, o conto de pessoas de mundos diferentes – Jack, um pobretão; Rose, uma dama, noiva de um milionário – conectando-se em um cenário trágico. Leonardo DiCaprio tornou-se um astro com a popularidade do filme, e sua fama global súbita também contribuiu para sessões repetidas do filme por hordas de fãs enlouquecidas. A aventura histórica recriada por precisão também atraiu curiosos e entusiastas, assim como cinéfilos estupefatos pelo salto tecnológico proporcionado pela obra de Cameron. Os detalhes também ajudaram, como as frases que se tornaram parte do vocabulário pop (“Eu sou o rei do mundo!”), a trilha sonora grudenta com Celine Dion à frente e toda a mítica dos bastidores, o que terminou alavancando a curiosidade sobre o filme. Tantos elementos que, somados, fizeram do épico romântico um verdadeiro fenômeno social, um filme que se tornou parte das discussões, e ninguém – ninguém! – queria estar de fora. Finalmente, claro, o fato de Titanic ser um filmaço, um drama bem escrito e bem dirigido, com uma visão clara sobre que filme quer ser, em tom, em execução, um tecnicamente perfeito e emocionalmente brilhante.


De lá para cá, poucos filme conseguiram uma conexão tão completa com o público. Nem Avatar, do próprio James Cameron, que em 2010 tirou Titanic do topo das maiores bilheterias mundiais, conseguiu uma impressão tão expressiva na cultura pop. Talvez Batman – O Cavaleiro das Trevas tenha alcançado notoriedade similar em 2009, assim como Os Vingadores em 2012. Mas estes são produtos, em que o filme é parte de uma cadeia de bugigangas gigantesca. O mesmo vale para sucessos mais recentes como Frozen, Harry Potter, Velozes e Furiosos ou Piratas do Caribe: nada tira o mérito de outros membros do “clube do bilhão”, mas eles são crias da indústria cultural. Titanic (ou Ghost, ou O Exorcista, ou Tubarão) são obras que constroem uma conexão com o público pelo que elas são: histórias que poderiam ser contadas em torno de uma fogueira, mas que encontraram seu canal narrativo no cinema. Talvez seja assim que surjam os verdadeiros fenômenos culturais: ao acaso, com a visão, a teimosia e a determinação de um artista que precisa se expressar. Titanic não tinha mesmo como dar certo. Só que esqueceram de dizer isso a James Cameron.

FONTE: Blog do Sadovski
João Alves

João Alves

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